Alcoolgeleização da vida

O cronista busca assunto em meio à quarentena provocada pelo Covid-19

Nada pior para uma cronista do que não poder sair de casa. A menos que ele seja um Rubem Braga ou um Drummond, cujas vidas são uma Beijing de histórias. Pra você ter uma ideia, confinada leitora, confinado leitor, num mesmo livro* o cronista de Cachoeiro de Itapemirim conta que esteve num evento no Morro da Mangueira na década de 1930 e, cinquenta anos depois, relata um encontro com Rita Lee, a quem chama de “ruiva andorinha”.

Só pra humilhar nossa quarentena existencial, um dos convidados do evento na Mangueira era o Noel Rosa. O poeta de Vila Isabel deu o cano, mas só a ideia de que ele estaria por lá é um assombro.

Obra do escritor capixaba, publicada em 1988

Mas aqui no Pilarzinho, eu espreitava a chance de “bater as asas pra fora” a fim de manter o Letra Corrida com alguma dignidade. A farmácia, o trabalho e o supermercado eram as musas à mão. Socorreram-me as duas últimas.

Entre ansioso e apavorado, caminhando contra o corona, com lenço de papel e um frasquinho de álcool gel nas mãos, me joguei na rua.

Fui gravar uma aula em um estúdio aqui de Curitiba. Estávamos todos tensos. Sentia-me vetor e vetorizado do Covid-19, essa traquitana proteica invisível que pôs o mundo em stand by. (Merecidamente, diga-se.) Os técnicos tinham os olhos vidrados. Ou melhor, voltados para suas casas, onde queriam estar.

Frascos de álcool gel nas mesas eram a boia gelatinosa de salvação. Toca no teclado do computador, álcool gel; toca na caneta emprestada, álcool gel; toca no microfone, álcool gel; esbarra sem querer as mãos na maçaneta, álcool gel. A alcoolgeleização da vida.

Acabada a sessão, desci as escadas e escorri apressado para a Saldanha Marinho. Mal me despedi do porteiro, cujos olhos eram um combo de pavor e resignação. Na rua vazia, uma película embaçava as coisas. A Fanel, loja de artigos esportivos, exsudava pela porta o vazio que a sufocava desde que abrira.

No supermercado, vi as pessoas com luvas, máscaras, e aqueles olhos. Ou eram os meus?. Mal via os pães, doces, cerveja, café e a mistura que estavam na minha lista mental de compras. O véu gelatinoso adensara e eu submergia cada vez mais para dentro de mim, contaminado do espirito do álcool gel.

Passei pelo caixa, mal conversei com o atendente. Asseptizado na alma, apertei o passo, cheguei no carro, guardei as compras, sanitizei chave, maçaneta, volante e câmbio com o unguento salvador.

Antes de entrar em casa invejei o Braga até o último frasco de álcool gel.


  • *É o As boas coisas da vida, publicado em 1988, pela Record, Rio de Janeiro.

6 comentários em “Alcoolgeleização da vida

  1. Onde ninguém vê beleza, apenas tragédia e dor, ou apenas o nada diante dos limites da vida, o autor fax arte, e fazendo uso de um chavão sem constrangimentos, pq essa crônica o comprova” o escritor é o artista das palavras”.

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  2. Gostei! O texto flui e desliza pela nossa mente, maciamente, como se fora o gel que, abundantemente, tem nos protegido do inimigo invisivel. Parabens!!

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