Vade retro

Sair de casa tem sido uma lástima. Não deveria. Deveria ser uma epifania. Mas é húmus pra úlcera, novelo de pesadelo. O ruim começa nos óculos embaçados por causa da máscara, segue com a esfregação do álcool em gel e culmina no medo de aproximar-se das pessoas.

Mas saí. Obrigava-me o exame médico para renovar a carteira de motorista. Fui de carro. Dirigindo, desço a máscara pra baixo do nariz, tipo o bronco do Alexandre Garcia, pois não aprendi como evitar a névoa que empana as lentes dos óculos.

Cheguei vinte minutos antes. (Esta era a segunda vez, na primeira atrasei quatro e perdi o exame.) A clinica marcava ponto na Jacarezinho – dessas ruas tipo montanha-russa que se desprendem da região norte de Curitiba. Deixei o carro abraçado ao frio que condensava o ar da cidade numa via abaixo e decidi dar uma volta a pé.

Isso era nas Mercês, bairro que encosta um braço no Centro e outro em Santa Felicidade. A via principal cujos longos membros se esticam entre esses extremos leva o nome de Manoel Ribas – é larga, retilínea no início, sinuosa no fim. As margens são ribanceiras: uma despenha pro norte mas logo se apruma batendo na Vista Alegre, Bom Retiro e Pilarzinho; a outra rola sul abaixo, passando pelo Bigorrilho, Batel, Água Verde até amansar no brabo Parolin.

Subi a Jacarezinho em direção a Manoel. No primeiro cruzamento, tomei o cuidado de não me aproximar de duas mulheres bem agasalhadas, que apostrofavam o sinaleiro. Liberado, liberadas, atravessamos: elas torceram à direita; eu risquei reto.

Do outro lado da Jacarezinho, uma loja de presentes expunha bambolês, boias e bolas na calçada vazia. O verde limão e o rosa choque que incendiavam os brinquedos lutavam em vão contra o vazio do lugar.

Segui toureando o frio e à frente avistei uma faixa do MacDonald’s alertando que o serviço de entrega para carros estava funcionando. O tal Drive. E deram uma informalizada no nome, Méqui.

Gosto desta abrasileirada. Num gostei foi de outra: a funcionária dos engraçadinhos – preta, morrendo de frio num quiosque na calçada – vendendo sorvetes pra eles. Usava aquele capacete de soldador gourmetizado e máscara. Ela toda peliculada e o quiosque chumbado no ar gelado.

Já na Manoel, passei ligeiro por um supermercado. Do outro lado da avenida, um posto de gasolina todo cercado agredia a boa urbanidade. Tudo meio destrambelhado, tinha aquele ar de ter sido fechado às pressas.

Virei o rosto e uma igreja cresceu à minha frente. Inclinei para a guia da calçada. Melhor a sarjeta que o templo. Tem nada que me assuste mais do que uma gente que tem entrado e saído deste lugar. Por sorte não detectei beato ou beata na área.

Fachada do Saber Viver em Curitiba/ Foto: EVM

Virei à direita duas vezes, descendo, e dei na rua em que estacionara o carro. Passei por ele e à esquerda reparei num estabelecimento enigmático. Na verdade era um “espaço”. Espaço “É preciso saber viver”. Com subtitulo (!): ‘Nossa Saúde’. Um templo de Autoajuda? Comecei a sentir saudades da Igreja. Na fachada, desenho de árvore cujos frutos eram palavras. Num galho mais alto chamaram-me a atenção dois pomos-vocábulo: Futuro e Felicidade.

Achei mais prudente apertar o passo para não me atrasar. A renovação da CNH pareceu-me uma saída honrosa.

11 comentários em “Vade retro

  1. Nossa, que pesadelo de primeira, heim? E os dizeres da porta do “templo de auto-ajuda”, vc. viu? “A gente cuida melhor do que é nosso.” Ui, chegou a dar calafrios… Que raios tudo isso quer dizer???!!!!

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  2. Eugenio gênio da crônica viajei com você por todos esses lugares de Curitiba, com medo de tudo até da Flordelis. Parabéns, lindão, você mostrou o que todo mundo está sentindo .

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