O galo (ainda) canta

por Vilmar Debona*

No bairro de Santa Maria, a cidade gaúcha em que moro, ainda há ao menos um galo vivo. Ele canta. Galos urbanos quando cantam, denunciam. Denunciam mais que a domesticação; chegam a acusar projetos falidos de urbanidades cinzas, em que só se buzina, esbarra-se, acotovela-se num vai e vem incessante… e quase não se canta.

“O galo vermelho”, Marc Chagall (1952)

Galos e galinhas, quando ainda cantam, especialmente em zona urbana, lembram-me da eternidade laica daquele canto de denúncia ouvido há mais de dois mil anos. O que fazia o galo, ao não cantar, nas duas primeiras negações de Pedro? Dormia, provavelmente, ou sonhava que omissão e covardia fossem matéria apenas de sono, de sonho, e não de vigília. Mas a terceira vez o despertou; e ele, abrupto e vigilante, esgoelou-se na zona urbana da velha Jerusalém.

Trinta e três anos antes, à meia-noite de 24 de dezembro, outro galo – ou seria o mesmo? – cantou de forma nunca ouvida. Anunciava a vinda do Messias sem suspeitar que, após cerca de três décadas, lá estaria ele – ou seria outro? – cantando a ida. E muito menos suspeitaria que o Papa e todos os católicos fariam missas em seu nome. E que Machado de Assis lhe dedicaria crônicas, como aquela em que o escritor diz acordar em Laranjeiras com o cantar de um galo, que fazia o favor de lhe atirar à rua para ver que o sol já se empoderava de tudo. O cronista desejava que a rotina galinácea continuasse para sempre.

Cá entre nós, convenhamos! Se nos trópicos parece haver uma fonte inesgotável de tristezas, há também muitas galinhas; há galos e galisés de belas plumagens.

Clarice Lispector escreveu que galinha é um ser. Uma delas, instantes antes do almoço em que seria servida, fugira da cozinha alçando voos curtos, desajeitados, mas contínuos, por sobre muros ásperos. Foi novamente capturada, mas como, nesse intervalo, botara um ovo, desistiram de imolá-la. Por algum tempo.

Belchior cantou que, enquanto havia galos, noites e quintais, não tinha olhar lacrimoso, era alegre como um bando de pardais; e fazia ele mesmo o seu caminho. Depois, quando não havia mais galos nem quintais, uma força bruta teria feito com ele o mal que a força sempre faz. Em certa época, e para certos ouvidos, a música do cearense continuaria: se alguém não fosse feliz, em compensação poderia também não ser mudo, e a força bruta permitiria cantar “muito mais”.

É quase tudo o que ouço do dito galo que ainda há por aqui. Nunca o vi, mas sempre o admirei. Ao menos uma vez por semana nos colocamos em maior sintonia. Ele me canta e eu lhe respondo que “sim, eu compreendo a tua mensagem”! Canta todos os dias em torno das onze e meia da noite, constante, incansável, com a mesma afinação e com a mesma gentileza. Hoje atrapalhou-se um pouco, provavelmente por causa da ventania fria que se abateu morro abaixo, vale adentro. Atrapalhou-se e cantou antes, quinze pra onze. – “Vá dormir e pare de tentar abstrair o mundo”, ele quer me dizer a esta hora. De madrugada ou na aurora, faz algo ainda melhor: não canta. Ou canta só para os outros. – “Durma! Vale mais que acordar”, ele quer me dizer ao não cantar.

Mas, então, lembro que também se ocupou de galos um poeta espanhol. Chicho Sánchez Ferlosio quis denunciar ditaduras, covardias e arbítrios da força bruta. Quis gritar nos tímpanos dos que sufocam cantos de autenticidade e luta. E, então, acabou por revelar mais uma faceta da identidade do galo da velha Jerusalém. Sua poesia foi cantada em resistências mundo afora. Por aqui, virou hino ante a civis-militares uruguaios, argentinos, chilenos. Diz que sempre, para todas e todos, em todos os tempos, haveria ao menos dois tipos de galos: o esquivo, traidor; e o valente. E que “no se rinde un gallo rojo solo cuando ya esta muerto”.

Pois como será que irão proibir, perguntaria dessa vez o nosso Chico, quando o galo insistir em cantar?


* Vilmar Debona é professor de Ética do Departamento de Filosofia e do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFSC (em Florianópolis). De 2017 a 2019 foi Professor do Departamento de Filosofia da UFSM (em Santa Maria). É autor de livros e artigos sobre Arthur Schopenhauer e suas recepções nas culturas contemporâneas, dentre os quais A outra face do pessimismo (Edições Loyola, 2020).
E-mail: v.debona@ufsc.br

2 comentários em “O galo (ainda) canta

  1. Bela crônica do amigo Vilmar, suspeito que teclava na escrita desse texto nessa casa em que habito agora, abraço e saudades do amigo.

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