Cidade verde

Sentei na grama que cobre as calçadas da avenida Cândido de Abreu. Aproveitei uma sombra projetada por uma dedaleira. Os cipós-de-São-João incendiavam o telhado do Shopping Muller com suas flores de fogo. Os arbustos de hibisco selvagem dedilhavam os limites da praça do Homem Nu com botões vermelhos. Meu plano era seguir até a Praça Tiradentes, marco zero de Curitiba, para admirar as gralhas azuis, as cutias e os serelepes que saltam e correm entre as araucárias, aroeiras e paineiras.

Não, leitoras, leitores do Letra Corrida, não estou sonhando, mas apenas imaginando a cidade segundo a sugestão de um agrônomo italiano, o Stefano Mancuso. No livro a Planta do Mundo, ele escreve sem meias palavras que “na cidade, todas as superfícies deveriam ser cobertas de plantas”. Sugere que telhados, bancos, calçadas, muros, tudo pode servir de terreno para as plantas. Entende que a separação entre cidade e natureza é catastrófica.

Estamos virando um bicho de cidade, dependentes dela como nunca fôramos antes. O ser humano já encarou o gelo, palmilhou desertos, enfiou-se em florestas, pendurou-se em montanhas altíssimas, mas agora aperta-se como passageiro do trem da Central em cinturões de pedra, piche e vidro. O jeito, segundo Mancuso, é trazer a natureza de volta para a cidade.

Em nossas metrópoles, plantas e afins servem apenas para saírem na foto, como adorno. A ideia é tirá-las do retrato e conviver com elas. Derrubar o alambrado mental que separa a megalópole moderna da natureza. Com isso, viveríamos melhor e ainda recuperaríamos parte do planeta, com quem contraímos uma imensa dívida de carbono desde a Revolução Industrial.

No Brasil já somos 84% da população ocupando centros urbanos. Isso significa que se cortarem a luz, água e a internet estrebucharemos como um cardume fora d’água. Necessitamos da tecnologia urbana e industrial, como o bezerro do úbere da vaca. Em 2050 o planeta terá cerca de 70% das pessoas trocando fluidos sobre o asfalto quente. E tudo isso de gente numa quitinete planetária, pois hoje todo esse pessoal ocupa menos de 3% da área habitável da Terra. A outra parte ou é um tanto inabitável ou está tomada pela agropecuária ou morre de medo de ser devastada no interesse das… cidades. Por isso o alambrado tem de cair, segundo o italiano.

Aqui no Pilarzinho tem muita árvore. No meu quintal há mais de uma dúzia delas. O povo da vizinhança vive me alertando: — Seu Eugênio, cuidado com essas árvore, elas pode cair!. O subtexto está claro, verdíssimos e verdíssimas leitoras: “Corta elas logo”. Mesma sugestão veio do engenheiro da prefeitura que chamamos pra avaliar duas árvores que pareciam estar doentes, ameaçando cair. Do lado de fora do portão, sem nem mesmo apalpá-las ou arguí-las, sentenciou: – Corta!. Graças à Adriana, salvamos uma, um pau-leiteiro (Sapium glandulatum), que se recuperou depois da visita do tecnoburocrata municipal e antes de chegarem os lenhadores.

Outros moradores aqui do bairro lutam contra folhas e todo resíduo vegetal que encontram pela frente. Um ferramental destinado a isso os aparelha e sufoca de zumbidos elétricos o pacato ar do Pilarzinho. Roçadeiras e Sopradores de Folhas são os protagonistas desse concerto ensurdecedor. Porcelanatos sepultam sob reluzentes calçadas e tristes quintais a mais valente erva daninha. Não acho que a turma do bairro concordaria com a proposta do Mancuso. Mas eu tô com ele e com Primo Levi, escritor e químico italiano. Levi disse que para a roda da vida girar “são necessárias as impurezas”.* Vá dizer isso para seus vizinhos.

Mas não posso desdizê-los completamente. Ano passado ouvi uns fortes estalidos de madeira e corri pra varanda investigar o que era. Supus ser alguém cortando galhos ou madeiras na rua. Os estalidos aumentaram de volume e de repente uma canela de um seis metros ou mais desabou da calçada de casa para o asfalto. Uma paulada visual, sonora e metafísica. Sem deixar de ter lá uma beleza.

Apesar disso continuamos, eu, a Adriana e a Aurora, a viver rodeado de árvores e debaixo de outras tantas, mais plantas e assemelhadas. Se depender de nós, seguiremos apostando na utopia do agrônomo italiano. Mesmo sem entender (e acreditar) como isso pode dar certo.


* Esse trecho foi extraído desta passagem do belíssimo livro A tabela periódica (1994): "Para que a roda gire, para que a vida viva, são necessárias as impurezas [...]" (p. 39-40)

2 comentários em “Cidade verde

  1. Os engenheiros, invejosos da natureza, vivem decretando a derrubada de árvores. O mesmo me aconteceu aqui. Talharam uma sibipiruna, sob alegação de que a raiz estava podre. Com ela, tempos depois foi-se uma magnífica primavera, que a tinha como apoio.
    Não conheço o Mancuso, mas Primo Levi viveu as impurezas como ninguém, e delas soube tirar memórias de uma densidade poucas vezes igualada.
    Cortemos os engenheiros e mantenhamos as árvores. E todos aqueles bichos que você tem por aí.

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    1. Vc acredita, Rubem, que o cara ficou do lado de fora do portão, perguntou quais eram as árvores, olhou pra elas e disse pode cortar, sem sequer investigar, nada. Uma árvore de mais de seis metros de altura, nativa, etc. e tal. O Mancuso vem sendo editado pela UBUI. Escreve coisas interessantes sobre as plantas, pelo menos pra mim, um ignorantão no assunto. O livro do Levi que eu cito, o Tabela Periódica é lindo. Vai narrando episódios da vida dela a partir de um mineral. É lindo. A sibipiruna é majestosa. Se eu não me engano, é parente do pau-brasil. Forte abraço e depois vc me conta se aquele projeto mencionado por você no começo do ano ainda pulsa!

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