Em busca do calor perdido

Caminhava para exorcizar o frio que me sorveteava os dedos dos pés. A elegante luz de inverno compensava os minguados graus célsius daquela manhã. A ideia era fustigar ossos e músculos em busca do calor perdido. Incendiado pelo objetivo, desci a rua de casa rumo ao Bosque do Pilarzinho. Movia-me também o propósito andar a meia hora regulamentar prescrita por 11 entre 10 médicos brasileiros.

Ao chegar ao bosque, meus pés já escapavam da zona de rebaixamento térmico e puderam se dedicar ao que lhes é destinado, guiar-me por essa Curitiba de deus. Subi, então, o barranco que ergue-se à margem da Manife Tacla e desembarquei na praça Primavera, que solda, num espação só, cancha, campo de futebol, aparelhos de ginástica, mesas de jogos e um acanhado playground.  

Parquinho acanhado na praça Primavera, Bosque do Pilarzinho/Foto: Eugênio Vinci de Moraes

O playground aterrissa num círculo de areia. Acomoda um escorregador azul, um trepa-trepa vermelho e uma gangorra de madeira com alças rubras. Ninguém, além deles, naquela roda acalentada de sol. Nem crianças havia por perto. Levitado pelo silêncio, parecia um totem de civilização perdida. Ou um cenário de série distópica com fotografia premium.

“Tanta coisa depende de

um escorregador azul

e de um trepa-trepa vermelho

esmaltados de luz”, arriscou malsucedido o poeta patife.

Na cancha, duas tabelas de basquete banguelas. Alguém lhes arrancou as cestas, as privatizou em algum quintal por aí. As tabelas, sorrindo um sorriso desdentado, comemoravam, quem sabe, o fim das boladas nas fuças. Temendo ouvi-las trocar confidências, rapei fora da cancha concentrando-me em esgotar os 30 minutos da aeróbica autoimposta.

Caí no campinho de futebol. Um alambrado de mata escora uma das laterais do campo. As traves piscam amarelas nos extremos do gramado. Um gol sem rede; outro, com. Neste, a rede faz arte — moderna –, desconstruindo-se à força de rasgos e remendos. E desnorteia o artilheiro, que perde o senso e chuta pras estrelas.

Gol do campinho do Bosque do Pilarzinho/ Foto: Eugênio Vinci de Moraes

O alarme do celular dispara, cumprira-se a tarefa. Hora de voltar. Com pés termorregulados e mente turbinada julguei ter encontrado o mote pra crônica da semana. Acendi as primeiras palavras escalando a ladeira que me levava pra casa.

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