Tumbeiro 2021

Não sei se você viu Grito no Subúrbio, foto de Breno Carvalho. Ela ganhou o prêmio Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos este ano. Poderia chamar “Tumbeiro 2021”. A imagem do Breno flagra o aperto num BRT da Zona Oeste do Rio. BRT é o que chamamos aqui em Curitiba de biarticulado, coletivo compridão que circula por vias chamadas de canaletas. Em São Paulo, esses busões rodam no que os paulistanos chamam de corredor exclusivo de ônibus, se eu não me engano. E esse BRT é uma sigla pra Bus Rapid Transit, em inglês.

Voltemos à foto. Nela, há quatro mãos agoniadas, contorcendo-se como num quadro de Goya ou num desenho dantesco. Três mulheres estão socadas na porta, não vemos as cabeças de duas e uma delas abre uma boca munchiana — o tal vou “lançar um grito desumano que é uma maneira de ser escutado”. O sol acende os três corpos e deixa tudo mais abafado. De onde elas vêm, aonde estão indo? São “mulheres desgraçadas”, que, de longe, vêm para servir, “alquebradas”, patroas e patrões?

A vontade é de correr e abrir aquela porta.

Mas a porta que abriu foi a do passado. Meados da década de 1970, avenida Santo Amaro, São Paulo. Seis, seis e meia da tarde, voltando da escola, dos 12 aos 17 anos, parado no ponto de ônibus. Em fila ou emparelhados na via dupla, assomavam as linhas que saíam do centro rumo à periferia: Pedreira, Jardim Ângela, Capão Redondo, Jardim São Luiz, Chácara Santo Antonio. Os coletivos vinham que vinham carregados pela interminável avenida da Zona Sul paulistana. A carga era o ilustre passageiro. O espaço era o mesmo da foto, mínimo. Ficávamos mofando à espera de um busão em que pudéssemos entrar ou, impacientes, perfurávamos a massa de carne e ossos maquinando como desceríamos no ponto de casa. Ser pequeno nesse caso era uma vantagem.

Diferente da foto premiada, as portas naquela época iam escancaradas, com o povo pendurado pro lado de fora, tostado pelo sol ou encharcado pela chuva, tirando uma fina de postes, carros, motos e afins. Iam agarrados ali homens, mulheres, trans, lésbicas, gays, travestis, queers, adolescentes, a maioria prados e pretos, e uns branquelos como eu. E isso não era razão para os ônibus moderarem na velocidade. Nem era relevante o fato de a Santo Amaro não ser uma autobahn, mas sim um carreiro coberto de piche. E ainda não havia os corredores exclusivos, o que liberava o condutor pra ziguezaguear nas duas pistas magriças da via. Ou seja, dirigiam ao deus-dará, como se dizia.

Ônibus circulando na Avenida Rebouças, São Paulo/ Diário do Transporte, 9/9/2018

Foi só vinte anos depois que a então prefeita Luiza Erundina resolveu apagar essa mancha da história do transporte público paulistano. A paraibana arretada bateu o pé e, década de 1990 em diante, os ônibus só podiam rodar de porta fechada. Foi aí que começamos entrar pela frente e sair por trás, como é a regra até hoje. Com isso o motorista só movia o machibombo quando conseguia fechar a porta.

Mas a foto do Breno Carvalho está aí pra mostrar que nada mudou apesar das mudanças. Se é assim, valem ainda, melancolicamente, os versos de Castro Alves: “Ó mar, por que não apagas/ Co’a esponja de tuas vagas/ De teu manto este borrão?”

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