Admirável mundo cão

Quando era menino havia vira-latas e cachorros de raça. Aqueles nas ruas, estes nos quintais. Em casa, nunca puseram as quatros patas. Minha mãe tinha de dar conta de meia dúzia de crianças, soltaria os cachorros em quem propusesse adotar um. Meu pai gostava pra cachorro era de passarinhos.

Meu convívio com canídeos rolava fora da propriedade familiar e na dos amigos. Convívio pouco amigável. Sobre os vira-latas pairava a ameaça da raiva, chamada assim por causa dos sintomas que provoca. Mas o nome da doença me remetia à afiada fileira de dentes das “feras” que eu flagrava nas ruas. Era ver uma pra mudar de calçada.

Os cães dos amigos quase sempre eram inimigos. Os dobermans dominavam os quintais de classe média da década de 1970. Conheci um que só obedecia ao pai — filho e esposa negociavam idas e vindas pela casa do café da manhã ao jantar. Até pequinês dava trabalho. Certa vez mexi na comida de um que retaliou me mordendo. Mas escapei das célebres antirrábicas, injeções na barriga que arrematavam a dentada canina.

Isso mudou quando conheci a Hebe, na década de 1990. Meio vira-lata, meio pastora, comprovou que a cãozada é de boa. Além de arrepiar com os ratos que escaneavam o quintal atrás de comida, deu conta de parir 11 filhotinhos. Fez tudo sozinha: escavou o buraco para acomodar a ninhada, expeliu as crias uma a uma, amamentou zelosa e serena a simpática ninhada. Foi a ponte que me levou aos cães de Curitiba, deixando pra trás a matilha assustadora da infância paulistana.

Paçoca foi o primeiro cão oficialmente adotado na capital paranaense. Meio linguiça, meio Fox Terrier, era muito doce e camarada, sem ser bonito. Assistimos juntos à vitória do Santos na Libertadores de 2011. Um dia os pneus de um biarticulado o levaram deste mundo, obra do Anel Viário que rasgou a pacata Vista Alegre pra dar vazão a carros e afins.

Depois dele vieram a Pepita e o Pipoca. Este caiu de paraquedas em casa. Ou quase. Foi largado filhote no meu quintal. A vizinha era uma cachorreira conhecida no pedaço e o abandonador oculto não conseguiu jogar o pequeno animal pelo portãozão dela. O meu era baixo, foi por ali que o Pipoca entrou na minha vida. Cabreiro, pensei em pendurar a placa “Não atirem cães”, mas desisti.

O Pipoca virou um cachorrão tão amável quanto desengonçado. Mas os adjetivos não sensibilizaram a cobra que lhe mordeu os calcanhares e o espantou deste mundo.

Hoje divido o quintal com os incansáveis caramelos Bagu e Fran. Vieram pra cá depois de roerem parte da tiragem de uma obra no galpão de um amigo editor.

Quase cinquenta anos depois, os cachorros de rua vivem em nossas casas, ganharam uma sigla SRD (Sem raça definida), os bravos viraram minoria e os de raça perderam a primazia. Sinto-me bem neste novo mundo cão.

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