A velhice é uma criança

Morria de medo de uma touceira de espadas-de São-Jorge. Crescia no canteiro do corredor que emendava a garagem ao quintal da casa de meus pais. Uma bruxa vivia ali, achava. Tinha a cara da minha vizinha. Esta, bravíssima, devolvia fatiadas as bolas que caiam em seu terreno. Sonhei muito com essa furibunda escondida na touceira, prestes a fatiar este cronista igual fatiava nossas pelotas.

Por um bom tempo, me pelava de passar rente às espadas. Havia, ainda bem, outra passagem para chegar ao quintal, lugar predileto da infância, além da rua, onde passava longas horas fora do alcance do GPS de meus pais. E do espadachim da vizinha.

Décadas depois, plantamos algumas São-Jorge aqui no Pilarzinho. Não formaram ainda uma touceira, mas avançam vagarosamente. Chuto serem pré-históricas. Uma espécie de grama mesozoica resistente aos formigões antediluvianos. Hoje, germinam destemidas, neste nosso mundo pocket. Mas posso, e devo estar, cenozoicamente enganado.

Admiro-lhes o sossego, expresso na lentidão em crescerem. Espigadas, as folhas levantam-se em brotos, nada ansiosas. As hastes alongam-se mansas no ar despreocupado. As Sansevieria guineensis não me apavoram mais, nem as bruxas. Tamo junto.

Os medos são outros agora. O de altura foi escalando com o tempo a ponto de meus joelhos tremerem só de flagrar alguém encarapitado num morrete qualquer. Em foto e vídeo, inclusive. Me aproximo de parapeitos, guarda-corpos e aparentados com muita cautela: braços na frente, pernas atrás, nada de olhar pra baixo.

Outro medo novo é o de escorregar. Moro num terreno despenhado. Descer a rampa de casa que encontra a rua, em dias de chuva, tornou-se um desafio. Meio como um fórmula 1, tenho sido obrigado a trocar os pneus dadas as novas condições: calçados com solas mais aderentes são um novo acessório.

E há as escadas, que unem os dois medos. Se um dia já me serviram de escorregador, tobogã e pista de skate, agora me despertam os alarmes do sistema límbico. Ao pisar o primeiro degrau, meus braços, como um boneco de posto de gasolina, tateiam o ar em busca do corrimão. Alcançá-lo é a meta, agarrá-lo é um bálsamo.

Os medos tornaram-se mais pedestres. Simplificou-se o roteiro. Menos mal. O tempo respira na ponta das espadas-de-São-Jorge e o ar freia esperando a luz alaranjada pincelar as últimas horas do dia. A infância é um ponto distante e a velhice ainda é uma criança.

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