Carreira não, destino

EVM um dia acordou de um sono colorido e viu-se cercado de bichos. Espécime urbana, menos de uma década de vida, o pivete esbarrava em pardais, ratos, lagartixas, formigas, araras, pássaros pretos e sabiás engaiolados, além do Chico, chimpanzé enjaulado no parquinho do clube em que EVM passava boa parte do seu expediente de criança. Mais tarde iria relacionar esse fascínio à zoologia, curso que, diz ele, pensou em ingressar lá pelos treze anos.

Mas antes, aos onze, o mundo animal deu espaço a um bicho da solidão, a literatura. Debaixo de uma árvore naquele mesmo clube, o rapazote colava os olhos na mancha enxuta de um romance nacional. As linhas breves narravam a história de um morto. “Não, não”, corrigiu, rápido, “um morto é que contava a própria vida”, e, segundo ele, de uma forma meio engraçada, meio mórbida, que entendia pouco, mas gostava muito. Mas esse não tinha sido o primeiro, disse. O gosto pelos bichos, conta, veio misturado ao dos livros. Bicho de papel e os da rua formavam um bestiário na mente em formação. À noite, antes dos seus irmãos apagarem a luz do quarto, demorava-se nas ilustrações de girafas a ornitorrincos da enciclopédia Conhecer.

EVM conta que lá pelos dez anos foi a uma psicóloga conversar sobre sua enurese noturna. O menino encharcava os lençóis noite sim, noite não, esticando o máximo a corda da paciência dos pais. Ao chegar, a psicóloga perguntou o que ele estava lendo. EVM diz que olhou para a capa verde apoiada na mesa marrom do consultório do Hospital do Servidor Público de São Paulo e respondeu “Dom Quixote das crianças”, de Monteiro Lobato. Pergunta retórica, ele advertiu, pois o título vinha estampado na capa junto à figura da Emília. Essa passagem, diz, lhe deu o carimbou de leitor. “Um carimbo, meu caro, dado por uma cientista de cabeça”, comentou, lançando uma poeira neurótica no ar. “Mas quem veio primeiro o morto ou o Dom Quixote?”, perguntei, perdido em sua cronologia. EVM esclareceu: “O Lobato e a Conhecer fizeram o leitor, o morto me levou pra literatura, entendeu?”

Os livros abririam mais um atalho na vida de EVM. Aos quinze anos, um professor de História o arrastou para o mundo dos homens. “Coisa ruim, mas fascinante”. Leo Huberman e Eduardo Galeano lhe descascaram o abacaxi do capitalismo, sistema testemunhado in loco pelo rapazote em Santo Amaro, bairro em que morava. EVM diz que passou a relacionar a exploração nas minas de carvão europeias, o trabalho infantil, o massacre dos indígenas e a escravidão na América aos ônibus lotados em que se enfiava para ir à escola, aos operários pendurados em andaimes de corda nos edifícios que brotavam como mato no bairro, aos miseráveis de toda ordem que encontrava na rua, na porta e dentro de casa, na figura das empregadas domésticas, dos catadores de lixo, dos entregadores de produtos da feira etc. Dali a uns anos isso o levaria a cursar História na PUC-SP, ele revela.

“Muita coisa aconteceu ali, que prefiro não contar”, advertiu EVM, “cometi até uns poemas nessa época, que o Poranduba, jornal dos estudantes, publicou”. Disse apenas que do curso de História, passados seis meses, pulou para o de Letras, do qual partiu um ano e meio depois para o de Filosofia, onde ficou por um ano e pouco. Da PUC saltou pro galho da USP, porque as mensalidades da Católica dispararam graças à inflação cultivada pelos militares na década de 1980. EVM deu um tempo por lá e largou tudo de vez. Trancou a faculdade. E mais uma vez os livros deixaram sua pegada. Foi vender livro, foi o que ele me disse, na rua.

Camelô, conta que testemunhou o embate entre a prefeitura de São Paulo e seus parceiros de tabuleiro na década de 1990. Com o dinheiro dos livros, EVM deu um up grade e, com um sócio aventureiro, abriu um Sebo na região da avenida Paulista com a Consolação. Virou livreiro. E aqui a história poderia ter acabado, segundo ele, se tivesse sido um bom comerciante. Aos 7 anos a livraria morreu abraçada ao Plano Real. EVM então voltou para a universidade, para o curso de Letras de onde saiu doutor em Literatura Brasileira quase dez anos depois. “Mas como ganhou seu pão esses anos todos?” perguntei. “Como revisor e tradutor”, respondeu, “enfiando mais ainda o nariz nos livros”.

Hoje professor, revisando ainda e cercado de bichos e plantas em Curitiba, EVM parece querer encerrar nossa conversa. Consigo ainda perguntar-lhe como se definia, se se sentia realizado, se tinha consolidado uma carreira, algo nessa linha. Ressabiado, soprou que até tinha um Lattes, mas carreira, não. “É mais um negócio de destino, acho. Li isso num livro do Jamil Snege, um escritor aqui de CUritiba”, disse. Pensa em fazer outras coisas, à beira da sexta década de vida. “Zoologia?”, pergunto. Sem responder, despede-se com um aceno. Leva um volume de crônicas debaixo do braço, Como tornar-se invisível em Curitiba.


* Foto extraída da página virtual do Sebo Messias.

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