Liga do Justice

Você já roubou um banco? E vinte e seis? Aposto que não, mas o ex-ciclista Tom Justice, sim. E sem dar ou levar um tiro. Em Chicago, com uma bike laranja, chegava no caixa, apresentava um bilhete — Isto é um assalto. Coloque todo o dinheiro na sacola — e saía da agência com um saco de dólares. Raspou mais de 600 mil reais em quatro anos de vida bandida. Encerrou a carreira em 2002, quando a polícia o apanhou e o prendeu, impedindo-o de pedalar até 2011.

Tudo isso está em uma matéria publicada em 4 de maio de 2022 na Época Negócios, traduzida do site da BBC News. Ninguém explica por que essa saga terminada há 11 anos foi noticiada agora. Mistérios do jornalismo nacional. Mas voltando ao Justice, lemos que sua guinada à Billy de Kid foi inspirada nos filmes Caindo na Real, com Wynona Rider e Ben Stiller, e Fogo contra Fogo, com Al Pacino e Robert de Niro. Do primeiro, Tom identificou-se com o perdidão Troy Dyer, colecionador de empregos, e do segundo, a ideia do assalto a banco. O gatuno tinha um estilo: guardava uma parte da grana, a outra doava. Preso, perguntaram-lhe o que tinha feito com o dinheiro — “Nada”, respondeu.

Justice quase chegou às Olimpíadas. Aos treze anos se encantou ao ver bicicletas voando num velódromo em Chicago. Começou a treinar e anos depois ficou a uma pedalada de competir com a equipe norte-americana, nos anos noventa. Tinha uma especialidade: ultrapassava o líder nos 45 segundos finais da prova de mil metros. Mas a rotina dos treinos lhe freava o ânimo. Preferiu usar as grossas pernas para competir no mercado financeiro. Uma magrela especial, uma Steelman, lhe fazia companhia. Estava criada a Liga do Justice.

Nosso homem de aço rodou por mais de dezesseis estados ianques após aprender a roubar na terra gerenciada por Al Capone nos anos vinte e na qual morreu John Dillinger, em 1934, na saída do cinema. Duas celebridades do crime cujas vidas também foram filmadas e, quem sabe, assistidas por Justice. E sua prisão começou com uma fuga cinematográfica. Depois de ajudá-lo a escapar dos tiras, a laranja Steelman foi abandonada num terreno baldio. A pista que acabou levando até ele.

Tom Justice entrou para o hall da fama dos bandidos estadunidenses. Com a vantagem de nunca ferir ninguém. Mais ou menos como as instituições financeiras fazem com a gente. Como diria Bertold Brecht, o que é roubar um banco comparado com fundá-lo? Isso me conectou a uma notícia recente aqui da província paranaense. Daniel Slaviero, irmão do vice-prefeito de Curitiba e neto de ex-governador do Paraná, acaba de levar 427 mil reais em bônus da empresa que preside, a Copel, companhia de energia do Paraná. Em um ano, sem pedalar um centimetro, arrecadou quase todo o dinheiro que Tom Justice reuniu em quatro anos roubando bancos. Melhor, sem risco de ser preso. — O que isso tem a ver com os bancos?, você pergunta. — O que hoje não tem?, respondo.

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