Jardim da infância

Seu Zé e dona Cecília viraram personagens. Ele jardineiro, ela vizinha. Ele pardo, ela negra, ambos elegantes. Seu Zé cuidava do jardim de casa, em um período da minha infância, na década de 1970, em São Paulo. Uma vez por mês, creio. Lembro-me bem dele, da voz grave. Homem cordato, pacífico, pele curtida, palma das mãos grossas, vivia num outro mundo, sobre o qual só iria entender mais tarde. De dona Cecilia, as recordações circulam num pequeno cômodo da memória. Eu a vejo agora com saia abaixo do joelho, camisa de manga curta, abotoada até o pescoço. Fazia um suco de couve batido para minha asma.

Não sei quanto viveram, nem quando morreram. Tem uma história com o seu Zé. Não é real, nem fictícia. É um arranjo verdadeiro da vida que foi na vida em que estou:

Quixotes

— Ô Geninho, arruma um copo d’água pra mim, disse seu Zé, tirando o chapelão com a mão esquerda e passando a direita na testa.

— Tá aqui, seu Zé, entreguei-lhe o copo, cuidando pra não derrubar a água, desajeitado.

— Que você tem debaixo do braço? perguntou franzindo a persiana de rugas do rosto.

— Um livro, repliquei rápido.

— Mas que livro, menino? Tem nome?

— Tem sim, respondi curto.

— Umm, passa ele aqui pra mim, esticando o braço escuro, lavrado em músculos e ossos.

 Ele pegou, folheou e completou:

— Esse dom Quixote era um magrelo como eu, num era? Tinha um lá onde eu morava.

— Onde o senhor morava, seu Zé?

— Longe, fio, longe, respondeu girando o globo branco dos olhos pra cima.

— São Paulo?

— Alagoas, Geninho, disse devolvendo o livro.

— Esse Quixote mora no sítio da Dona Benta, era lá esse sítio?

— Não, esse Quixote aí andava na rua, gritava, brabo “Quem tocá na minha Biatris, morre!” Um dia, deu com o pau em cima do cavalo da fonte da praça, arrebentou a orelha da estátua, contou seu Zé, atirando os dentes brancos pra fora.

— No meu livro ele gosta de uma Dulci, Dulce, Dulcineia.

Sem me ouvir, seguiu:

— Tirou os bofe pra fora e foi difícil segurá ele. Perguntaram que raio ele batia na estátua do cavalo, e ele dizia, “é um dragão, um dragão, num tão vendo?”

— É, ele via coisas que os outros não viam, eu disse, apertando o livro no peito. – E o Sancho, o senhor conheceu?

— Me faz um favô, Geninho, me pega mais um copo, pediu, enquanto abria um buraco na terra pras mudas da mãe.

Corri pra cozinha com a pergunta pendurada na mente.

— Tó, seu Zé, entreguei, derramando parte da água gelada no chão. – Então, seu Zé, e o Sancho?

— Sancho, esse conheci, não, quem é?

Da rua veio o grito Gaaaaaaarrafero! e eu desembestei chamar a mãe.

Seu Zé curvou as costas antigas pra apertar cuidadosamente mais uma raiz na cova.


* Imagem que ilustra esta crônica: O ninho, gravura de Abrãao Batista, 60 x 48 – Disponível em https://www.gravura.art.br/artistas/abraao-batista.html

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