Daltonbloomsweek

Semana passada juntou o aniversário do Dalton Trevisan com o Dia de Bloom, quatorze e dezesseis de junho. Mas quase nada se falou sobre isso em Curitiba.

Do Dalton, só vi uma nota na página da Biblioteca Pública. O escritor pisou firme nos 97 anos e, segundo dizem, tem publicado uns livretes distribuídos apenas entre os amigos. Um artigo do curitibano Roberto Muggiati — jornalista, tradutor e amigo de Dalton — saiu no Estadão no dia quatorze, mas ninguém reproduziu por aqui, que eu saiba. O Bloomsday passou batido também, comemoraram em São Paulo, na Casa das Rosas. E este ano é o centenário do romance. Ulisses avançava pelos três anos de vida, quando o autor de Os desastres do amor e futuro admirador de Joyce nascia.

Talvez tenham sido engolidos pelo noticiário sobre Bruno Pereira e Dom Philipps. O episódio é tão desgracido que sufoca o bom e o bem que ainda pingam por aí, como a celebração da vida de um grande escritor ou a lembrança de um dos livros fundamentais da literatura ocidental. Mas esse silêncio não deve ter espantado o paranaense nem espantaria o irlandês, para os quais nada de humano é estranho.

Dou exemplos.

No oitavo episódio do Ulisses, Bloom entra num bar e descreve os homens, os macho, sem dó: “O odor crispou sua respiração tremente: molho de carne penetrante (…). Ver os animais comer. Homens, homens, homens. (…) Cheiro de homens. O nojo lhe subia. Serragem escarrada, quentusca fumaça de cigarro adocicada, trescalo de labuta, entornado de cerveja, mijo acervejado de homens, o rebotalho do fermento. Eu não poderia comer nem um naco aqui. (…) Achou-se fora e em pleno ar e voltou para a rua Grafton. Comer ou ser comido. Matar! Matar!” (tradução do Antonio Houaiss).

No A Guerra Conjugal, do Trevisan, o conto “O Pai, o Chefe e o Rei” resume a compulsão pelo conflito: “Em casa o olho branco de boi bêbado, atropelava a mulher e os sete filhos. (…) O velho batia a garrafa na mesa, esmurrava a parede (…) divertia-se a atormentar a pobre. — Pai, deixe a mãe em paz (…) — Você não é macho, seu moço — Já que pediu então eu te mato. (…) O velho deu uns gritos, logo arruinou-se. (…) Ergueu a mão fechada, praguejou o filho e morreu”.

Muggiati sugeriu criar o Daltonsday. Excelente ideia. Mas dada a emergência em que estamos não acho mau reunir os dois dias num evento só, tudo junto e misturado, como se diz hoje. Podemos dar um nome joiciano à coisa e fazer uma barulheira danada na semana, aqui na província: o Daltonbloomsweek. Dá liga?


* Dalton Trevisan/ Foto Rodolpho Buher, 28/10/2019.

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