Era uma vez na Suburbana

Oxo, era assim que Walter Abraão informava o telespectador da TV Tupi que a partida seguia sem gols. Em duas sílabas, carimbava a falta de graça do jogo. Esse foi o placar do primeiro confronto que assisti da Suburbana, campeonato de futebol amador de Curitiba: Operário Pilarzinho Sport Club versus Esporte Clube Fortaleza. Dois campeões da Suburbana em 2019, o primeiro, da série A; o outro, da B. Esse foi o último torneio realizado, por causa da pandemia.

Se no campo a peleja era chocha, no alambrado o clima era de goleada. Torcida com direito a bandeira e batuque, no bar uma fila de fazer inveja ao Maracanã, torcedores equilibrando copos de cerveja pela arquibancada, cachorros, moradores de rua, catadores de latinha, garotos com cabelos xilogravados, e um sol de inverno dando um ar clássico àquele sábado ordinário no Bártolo Gava, estádio do Operário.

No segundo tempo, a defesa do Fortaleza gozou uns minutos de férias. Deu tempo para um cãozinho atravessar de uma lateral a outra do campo, retornar e sair por onde havia entrado. O ala direito do Pilarzinho perdeu uns minutos discutindo com um torcedor que o havia xingado por ter caído e não levantado. O jogador alegava ter se machucado mesmo, era injusto aquilo, etc. Enquanto isso, um vale abria-se atrás de si, ignorado, porém, pela equipe do CIC, bairro industrial, da região sul da cidade.

Se o ala preferiu debater a jogar, os atacantes complicaram em vez de decidirem a partida. Falta na risca da grande área, jogador na bola, dois companheiros atrás. Em vez da martelada no gol, dois toques ensaiados antes do chute no Fortaleza. A bola piou, a torcida urrou — dois minutos pra acabar a partida, uma batatada dessa! Nada mais oxo.

A Suburbana é octagenária, só a pandemia a parou. Doze times a disputam. Além das séries A e B, há uma modalidade juvenil disputada por vinte equipes. Já levou jogadores para o profissional, como o lendário Vitorelli, que atuou Palestra Itália e no Real Madrid. O Operário surgiu dez anos depois, em 1951, venceu duas vezes a série B e uma a A. Chegou a jogar onde hoje fica a Pedreira Paulo Leminski, depois em um pasto, até conseguir o terreno do atual estádio. Morador há cinco anos no bairro, torço pra ele e para o Vasco da Gama, que está na série B e também é aqui da região. Mas confesso, gostei do Fortaleza, time valente, torcida daora. Quem sabe atravesso a cidade e apareço sábado desses no estádio deles.


* Foto do estádio Bártolo Gaza/Foto minha

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