Homens, homens, homens II

A pancadaria derrubou o apito final. Roubou dez minutos da partida. Mais chegados ao furor do que à ternura, os jogadores espalharam hematomas na polida tarde que afagava o Erondi Silvério, campo do Vasco da Gama Futebol Clube. Cobriram o sábado de socos e pontapés. E a torcida completou com uma barsa de palavrões. Pra evitar mais confusão, informo que esse Vasco é sem regatas, é o Vasquinho do PIlarzinho, fundado oitenta e cinco anos atrás.

O Clube Atlético Nacional, do Uberaba, chocava o fim do jogo fornido por quatro gols mal engolidos pelo adversário, que gaguejou um golozinho no primeiro tempo. Os dois times esperneiam-se no fim da tabela do campeonato da série B da Suburbana, de Curitiba.

O Erondi SIlvério já levou umas mordidas da cidade, mas guarda umas árvores de reserva atrás do gol de fundo. Serve-se do relevo de camelo do Pilarzinho e faz de arquibancada o barranco atrás do gol da entrada. Assisti parte da disputa ali. E o bar é de terceira divisão, avaro, poucos petiscos e só cerveja de litro.

O jogo começou suave. Rolou até trocadilho na arquibancada.

— Ele tá careca de saber que não pode dar chutão pra frente!

O brocardo de Ensino Medio escapou da garotada que assistia à partida atrás do banco de reservas do Nacional. O zoado era o Rafael Cicarello, o calvo goleiro vascaíno, que ignorava que seria expulso e sentiria saudades dos calembours colegiais.

Então espocou a maldição do lateral. Na Suburbana, jogar junto ao alambrado é nervoso. Merece adicional de insalubridade. O Vasco sem regatas ganhava de um a zero quando o seu ala esquerdo deu uma rasteira no atacante do Nacional. Pênalti. Saem os jogos de palavra, entram os tabuísmos.

— Levanta a cabeça, guri, ouviu de um companheiro mais tolerante.

Levantar como, se um torcedor abastecido sabe-se lá por quantos litros de cerveja de terceira declamou um dicionário de palavrões nos tímpanos do lateral? O primeiro tempo terminou empatado, mas o feitiço já operava.

Lucas Ruas, do Nacional, entrou e fez um belíssimo gol olímpico, o terceiro. O nome me veio redondo da boca de sua namorada. De pé, assistia o segundo tempo ao meu lado. Pelejando pra chegar aos trinta anos, tinha umas seis décadas de palavrão na traqueia. E não os economizava pra incentivar e secar os combalidos vascaínos. A meninada enfiou os trocadilhos no saco diante da pandemia de disfemismos.

A sombra do Raposo Tavares, avenida que cerca o Erondi, borrava aos poucos a fina luz de inverno. Vieram as expulsões do Rafael e a de um atacante do Nacional, o quarto gol e a briga. A namorada do Ruas quadriplicou o vocabulário e o volume. Parte da reduzidíssima torcida ensaiou entrar em campo. Depois de muito sopapo, a macharada desligou o modo primitivo e o pau arriou. O time visitante deu um tempo no campo e saiu aos poucos. O Vasco sem regatas abandonou o gramado em penúltimo lugar. O sol não queria mais nada com ninguém.

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