Chega mais, 2023!

Acordei com os latidos burocráticos do Fran. Ele trincava o silêncio da manhã com notas desafinadas e insistentes. Deve ser um gato, em cima da cerca, pousado no asfalto, limpando-se indiferente ao martelo protocolar do cãozinho. É preciso alertar o felino, esse espaço tem dono!, não chegue perto!, mas o pequeno Fran sabe que a cerca o impede e o gato é inapanhável. Divide-se entre o dever e o obstáculo, daí o latido insípido.

Levamos este ano meio como o Fran, rosnando nas redes sociais e latindo nas ruas para o gato inapanhável. Sem falar que ainda nos fazia de ratos, sacudindo-nos entre os dentes. No dia 30 de outubro armou-se uma grande arapuca no país, tudo para o gato ficar, a cerca permanecer e coisas piores acontecer. Mas não é que a cerca caiu e o gato teve de correr?

E veio novembro, vagalumes desabriram-se no quintal, quintal verde até não poder mais, tudo mais vivo, a toque de chuva. E veio a Copa, diminuindo os espaços do Natal, que, marcado pelas surpresas do Futebol, viu seus clichês perdidos em campo. Argentina e França pararam o planeta. Não deu tempo pra os enfeites, nem pro panetone. Restou um Natal magrinho, talvez com a parte melhor, Natal-raiz, encontro com a família, presente pra criança, atos de generosidade anônimos.

E encontrei o Tiago, magro, corpo de corredor involuntário. Gritou lá de baixo pedindo a caixinha da coleta de lixo. Fran e o irmão Bagu latiram a granel diante da máquina barulhenta, verde, que piscava luzes vermelhas e amarelas no limite da calçada. A meu pedido pararam de latir. Tiago e eu começamos uma conversa colados à cerca, e no fim, ele disse — O Senhor é Lula, né? Respondi, e ele — As coisas agora vão melhorar! Nos despedimos com o cumprimento da pandemia, punhos fechados, desenhando um tamo junto na noite granulada pela garoa.

Os cachorros voltaram a latir ao arranque do caminhão. O gato voltou a se enroscar nas minhas pernas, bichano, literal. Dois mil e vinte dois balbucia suas últimas silabas e, pela primeira vez, desde que comecei a escrever estas crônicas em 2019, o ano novo se aproxima menos ameaçador. Um obstáculo caiu, pelo menos. 2023, chega mais!


* Imagem: Renoir. "Julie Manet com Gato". Fonte: Google imagens/ Blog Estadão <https://www.estadao.com.br/emais/jair-barboza/gatos-na-pintura-de-renoir-e-boldini/>

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