Planilhai!

Uma planilha Excel flutua na tela do meu computador. Aguarda dados, deseja dados, quer processar dados doidamente em uma galáxia de colunas e células. Pode encaixilhar uma corporação inteira em seu éter de linhas. Um buraco negro capaz de enquadrar o evento mais redondo do universo. Aspira para seu plano quadriculado departamentos, colaboradores, notas, resultados, avaliações, salas de aula, alunos, o dado a quatro.

Essa vertigem começou na década de setenta — internet dixit —, com a criação da primeira planilha eletrônica. Chamava-se Visicalc, criada por nerds estadunidenses, depois a IBM gerou a Lotus 123, até a Microsoft — passando pelos computadores Apple — lançar o Excel, que hoje manda no sistema planilhar intergaláctico. Chamado de killer app, coloca o computador pra trabalhar de acordo com suas regras.

Hoje orbito o sistema planilhar, mesmo sendo professor. A praia onde dava modestas braçadas era o Word, eu que comecei chapinhando numa Olivetti Lettera 82. A adaptação é bruta. Copiar e colar rola de outro jeito, escrever, então, parece ocorrer em planetas diferentes, Plutão contra Mercúrio. Sim, planilhado leitor, já há quem use planilhas pra escrever. Nada literário, mas muita legenda, relatórios e afins.

Sempre hesito onde digitar o texto: na linha ou na caixa superior da barra de ferramentas? Wordista, amamentado em caderno pautado, vou direto em uma das linhas horizontais enquadrada em uma coluna. Acontece, então, do texto sumir atrás da coluna seguinte. Toca procurá-lo até que, sem mais, essa coluna desaparece e o texto outrora sumido ressurge. Ressurge espichado, atropelando colunas à frente, cujos dados ou texto que guardavam desaparecem. A ordem planilhar se desorganiza, a simetria desanda

— Sumiu tudo!

— Escreve na caixa luminescente da barra de ferramentas superior!, um anjo hachurado me sopra no ouvido. — Depois clica no botão abc e tudo ajeitar-se-á, completa em tom etéreo.

Onipresente, esse aplicativo matador expande-se quanticamente. Já virou verbete do Houaiss, que aceitou de boa o verbo planilhar. Transitivo direto, podemos dizer ou escrever planilhamos os custos, planilhei o dia hoje com dois cliques, coisas assim. Sonho voltar para o Word o quanto antes. Enquanto isso, leitor, planilhai! Planilhai, meu irmão, meu semelhante. Planilhai o vento, a onda, as estrelas, planilhai tudo o que encontrardes pela frente!


* Obra de Waldemar Cordeiro, disponível em: https://www.waldemarcordeiro.com/popcreto Acesso 24 abr. 2023.

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