Já passou por uma colonoscopia? Relaxe, não é tão ruim como te disseram, nem é um passeio. Tem dois episódios: o Preparo e o Exame. Mais longo e penoso o primeiro, ligeiro e indolor o segundo. O preparo começa dois dias antes do exame, nada de ingerir grãos — aveia, feijão e assemelhados. Sem pedras no meio do cólon. No dia seguinte, o veto alimentar recrudesce. Dá pra comer caldos, ovo cozido e modalidades de batatas molengas. Também estão liberadas torradas, bolachas sem sal e um macarrão al niente, molho de tomate e queijo ralado vetados.
Umas doze horas antes, em geral à noite, toma-se o laxante — “lasciate ogni speranza voi che…”. O purgatório ocupa toda madrugada. Bebe-se muita água pro remédio agir mais rápido e depois não se ingere mais nada. Jejum absoluto. Fica-se entre a vigília e o sono, entre o leito e o vaso sanitário. Permaneci nesse vaivém expiatório até as 8h da manhã. Próximo da hora de ir para a clínica há uma última lavagem. Injeta-se fosfoalgumasubstanciadenomeesquisito no reto com uma bisnaga pontuda e tosca pra limpar geral. Tive dificuldades, mandei pra dentro um terço do líquido. Oitenta por cento das instruções eu cumpri, suficiente para ser aprovado, espero.
Banho tomado, organismo de asceta indiano, hora de embarcar para a Clínica, na rua da Paz. Leve tensão na recepção, apresentação das guias, perguntas sobre o preparo, carteirinha do plano, está com acompanhante? Na baia ao meu lado uma pequena dissensão sobre o preparo. O paciente ao lado e as atendentes divergem acerca dos horários e intervalos do jejum. Pendenga hermenêutica em relação às instruções do exame. Não me meto. A recepcionista me devolve os papéis e me encaminha para outra sala. Etapa concluída com sucesso.
Logo me chamam, visto o avental cirúrgico, deito-me na maca, picam-me a veia do braço esquerdo, colocam-me de lado, em posição fetal. O anestesista faz algumas perguntas, dá uma explicação rápida, aplica o sedativo. O médico surge, vou ficando grogue, troca duas palavras comigo — soberano cercado de vassalos que preparam-lhe o brinquedo real: viajar pelo (meu) reto adentro.
Desperto meio tonto, sem dor alguma. Levam-me para uma poltrona confortável onde cochilo mais uns minutos. O anestesista falante pergunta-me como estou. Nada do Soberano. Encontro minha acompanhante, entregam-me o exame e vamos pra casa. Faltaram aquelas bolachinhas boas e a máquina de café. Me amarro nos capuccinos automáticos. Não recebi por e-mail nem por whatsapp nada para avaliar a clínica — muito satisfeito a nada satisfeito — coisa incomum hoje, ainda bem, uma meia dúzia de clique a menos.
Ganhei um dez no preparo do exame, o fracasso no último processo não contou para a avaliação. Dez também na ausência de riscos de neoplasia. Encontraram uma esofagite, velha conhecida, me acompanha há tempos. Ah, tive um sonho extraordinário, efeito do jejum, suponho. Tinha o Marcelo Freixo de indígena, nuzinho da silva, e eu flutuando gozozamente num rio ao lado dos Yanomami. Mas paro por aqui, isso já tá virando uma publi de colonoscopia, o que não convém.
* Anna Bella Geiger, Órgão Ocidental – Tronco, 1966. Ecoline, guache, lápis de cor e nanquim sobre papel, 42,6 x 31 cm. Coleção particular
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