Escrevo de bermudas esta crônica em 24 de junho de 2023, em Curitiba. A barra de ferramentas inferior do computador acusa 22º, no alto, o sol passeia sossegado num céu sem ranhuras. Nada de luvas e meias, um moletom à carioca, careca ao léu, o inverno flopou? Os memes de inverno ficarão na geladeira? O conflito adoradores x odiadores do frio não ocorrerá este ano? Culpa do El Niño?
Inverno aqui é coisa séria. Esses dias um jornal bem paranaense informou que a mercearia MIranda pôs à venda “frio empacotado”.
— What? –– tossiu o cético leitor.
Um travesseirinho transparente de uns 4 cm de diâmetro estampa orgulhoso nome e origem do produto: Frio – made in Curitiba. Talvez sirva como gelo. Enquanto mato um micuim, mordendo sem dó nesse dia cálido, planejo comprar uns dois ou três suvenires deste, darei para amigues e parentes paulistas, carimbando de vez meu passaporte local.
— Tu gosta de frio, então, piá? — protegido pela objetividade jornalística e pela subjetividade literária, não respondo nem a pau ao leitor intrometido.
E o que fazer com o lençol térmico recém-adquirido depois de quinze anos de hesitação? Esquentar água, fritar um ovo em cima dele? Soube pela primeira vez dessa utilíssima grelha de cama numa lojinha vende-de-tudo-miúdo-um-pouco na Trajano Reis, perto do Largo da Ordem. Todo inverno o dono pendurava um cartaz oferecendo a traquitana antifrio. Me interessava, mas refugava com pânico de ser eletrocutado no meio de um sonho bom. Adquirido, confesso que gostei, nos dois únicos dias que consegui usar neste começo de inverno gorado.
Mas o pavor do frio é criativo, inventaram a pantufa elétrica. Numa dessas reuniões de homme office da vida, conheci a existência desta assombrosa peça pró-calor. Me assusta, porém, a possibilidade de ter o pé eletrocutado por um gatinho de lã sintética. A pantufa é ligada na tomada, o que gerou uma eletrizante discussão, finalizada com a constatação de que, suplementos de computadores que nos tornamos hoje, sempre haverá um lugar por perto para plugá-la. Quem tiver mais informações sobre essa caranguejola originalíssima, cartas à redação.
— Mas se tá calor, por que essa conversa f(r)iada? — arriscou o trocadilho, nosso leitor enxerido.
Preferi ignorá-lo e registrar, enquanto busco um boné pra espantar o sol da cara, que Emma Garzon, uma jornalista sueca radicada na capital paranaense, declarou recentemente a um periódico local que está louca pra retornar à abafada Escandinávia, onde, segundo ela, passa menos frio do que aqui. Outro lugar comum curitibano, “o frio dentro de casa”, foi destaque na matéria. Mas o que me assustou foi a Emma ter contado que suas crianças evitavam brincar no quintal por causa do clima. “Tá tudo dominado”, deve ter pensado a descendente dos antigos suiões, já fluente em português.
Coisas assim enchem de orgulho os gelados filhos das araucárias, que, neste momento, enquanto ajeito os óculos escuros para digitar sem luvas este último parágrafo, devem estar se perguntando se deverão arquivar seus memes antológicos sobre o frio e começar a se reabastecerem dos memes apocalípticos e colocarem à venda os badulaques antifrio na internet.
