Mais perdido que cachorro no gelo

A alvíssima Aika perdeu-se no Ártico. A cachorrinha fugiu e acabou numa lasca de iceberg, quebradiça como um pedaço de beiju. Um calafrio de efeito colateral de Astrazeneca correu pelo meu corpo só de imaginar o frio. De tão doloridos, os coxins da pobre samoieda mal tocavam o solo gelado. Um navio quebra-gelo russo a avistou e a atraiu para embarcação com um modesto biscoito. Aika manquitolou até a escada baixada para ela e subiu. Estava salva daquela roubada glacial.

Suponho, então, ser verdadeira a conversa de os esquimós distinguirem diversos tons de branco. Isso pode explicar como os marinheiros russos flagraram a branquíssima cadela siberiana naquela claríssima porção do mundo. Sorte da Aika, que pôde voltar pra casa, na isoladíssima vila Mys Kamenny.

Na mesma Ásia, em vez de voltarem pra casa, quinze elefantes resolveram fugir. Formam uma família simpática, com três filhotes, liderada por seis fêmeas. Já deixaram pra trás mais de 500 km de terras orientais. A internet acompanha esse forrest gump elefantino enlouquecida, pelo menos no Weibo, o Twitter chinês. Podemos ver a turma vagar por matas, rodovias, ruas, prorromper em quintais e galpões atrás de saídas e comida. Periódicos assustam-se com os prejuízos provocados pelos obstinados mamíferos. Internautas enternecem-se com os cuidados dispensados aos elefantinhos pelos seus pais. É um reality show desgovernado, a despeito das barreiras colocadas no caminho dos animais para tentar guiá-los à sinorreserva de Yunann, de onde partiram.

Família de elefantes descansa durante caminhada pelo território chinês/Foto jornal Extra

Você pode vê-los na web, empática leitora, empático leitor, puxando uma soneca merecida; ou tentando beber água em uma viela urbanizada. Mantêm a serenidade. Seguem elefantes mesmo quando passam por lugares hostis a eles. Seguem assim inclusive ao amassar portas de ferro, ao arrasar galpões atrás de comida. Os homens seguem calculando os danos, os elefantes desdenham. Erguem as trombas alertando que não vão pagar. Acreditam que os homens é quem lhes devem. Os internautas querem uma explicação. Os cientistas hesitam. Como escreveu o poeta Francisco Alvim: “A tua volta tudo canta/ Tudo desconhece”. *

Eu aqui, deste lado do planeta, não palpito. Mistérios do Oriente são mistérios pra mim. Posso explicar por que o galo de Ivaiporã, no Paraná foi preso, jogado num camburão e autuado. Leram isso, meus informadíssimos, minhas informadíssimas leitoras? Não? Nem precisa. Sabemos que nesse país tudo acaba em polícia, pancada ou tiro. Fique por aí, Aika, em Mys Kamenny, na Sibéria. Elefantes, elefantas, rodem toda a Ásia, mas evitem a banda ocidental, em particular o Brasil. Pode parecer estranho pra vocês, mas hoje viver nesse país é uma fria elefantina.


  • Trecho do poema Elefante, de Francisco Alvim, extraído do livro homônimo (Cia. das Letras, 2000)

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