Noite na Taberna

Chegaram chegando. O primeiro balançava um barril de álcool nas entranhas. O outro era ligeiro, e se bebia, o esqueleto enxuto não o entregava. O bar fervia. As mesas subiam nas cadeiras, as cadeiras corriam pelos balcões, os balcões dançavam nas escadas, copos e garrafas flutuavam por entre cabeças sem corpos. Litros de paganismo derramavam-se…

Cancílio da Exanção

O ar cospe leões desdentados. Beletristas carregados na peruca comandam os destinos da republicareta nacional. Guias desmusculados marcham, chapadões, no planalto central. Há uma manada raivosa na loja de louças da democracia brazuca. Mergulhamos num exílio mental. Todo dia pingam uma gota lisérgica em nossa água. A última nos levou a testemunhar o rei da…

“Imensa preguiça!”*

AS palavras que lê agora, meu atarefado leitor, minha atarefadíssima leitora, digitam-se aqui mui lentamente. De pantufas, evitam arranhar a tela em que se inscrevem. Algodões, esperam tocar com delicadeza os ouvidos. Esvaziam-se, dão-se à aragem que roça as folhas da aroeira. Ondulam como a água de um lago profundo. Escolhem-se a si, lutando contra…

Mais perdido que cachorro no gelo

A alvíssima Aika perdeu-se no Ártico. A cachorrinha fugiu e acabou numa lasca de iceberg, quebradiça como um pedaço de beiju. Um calafrio de efeito colateral de Astrazeneca correu pelo meu corpo só de imaginar o frio. De tão doloridos, os coxins da pobre samoieda mal tocavam o solo gelado. Um navio quebra-gelo russo a…