Chegaram chegando. O primeiro balançava um barril de álcool nas entranhas. O outro era ligeiro, e se bebia, o esqueleto enxuto não o entregava. O bar fervia. As mesas subiam nas cadeiras, as cadeiras corriam pelos balcões, os balcões dançavam nas escadas, copos e garrafas flutuavam por entre cabeças sem corpos. Litros de paganismo derramavam-se…
CRÔNICA
Contos de fim de ano
As cigarras pacificam a tarde com um canto entorpecente. Em coro, os grilos as acompanham neste dia quente. A primavera derrama-se às portas do verão, colmada que foi pelo frio a um tempo extemporâneo e apocalíptico. Sei por boas fontes que isso não ocorreu só na fria Curitiba, mas em muito estado mais ao norte…
Recado da primavera
A primavera chegou. Desculpe a frase fácil. Talvez devesse rebuscá-la, criar uma metáfora, desarranjar-lhe a ordem. Mas quem pode com a primavera? Por mais amazônias que se queimem, ela insiste em voltar. Por trás da janela, florinhas amarelas espocam no ar lavado de sol. E a farra das folhas, preenchendo os galhos secos do outono,…
Cancílio da Exanção
O ar cospe leões desdentados. Beletristas carregados na peruca comandam os destinos da republicareta nacional. Guias desmusculados marcham, chapadões, no planalto central. Há uma manada raivosa na loja de louças da democracia brazuca. Mergulhamos num exílio mental. Todo dia pingam uma gota lisérgica em nossa água. A última nos levou a testemunhar o rei da…
Muito além do jardim
Nuvens corpulentas confiscam o sol . Uma membrana cinza amarra tudo sem mostrar os nós. O frio acorrenta-me os ossos às coisas que se engessam lá fora. Não há nada pra ver, nada sobre o que falar, ninguém passa por essa tarde, que deu um perdido por aqui. Encosto o olhar na construção em frente…
O homem invisível
Acordei com uma vontade canina de ir a um sebo. Há mais de um ano sem pisar num deles era de se esperar, mas esse desejo nasceu de um sonho na noite passada. Chovia muito nele. Fui levar cobertores para moradores de rua. Conversei com um casal que dormia num berço. Par que súbito reconheci…
Em busca do calor perdido
Caminhava para exorcizar o frio que me sorveteava os dedos dos pés. A elegante luz de inverno compensava os minguados graus célsius daquela manhã. A ideia era fustigar ossos e músculos em busca do calor perdido. Incendiado pelo objetivo, desci a rua de casa rumo ao Bosque do Pilarzinho. Movia-me também o propósito andar a…
“Imensa preguiça!”*
AS palavras que lê agora, meu atarefado leitor, minha atarefadíssima leitora, digitam-se aqui mui lentamente. De pantufas, evitam arranhar a tela em que se inscrevem. Algodões, esperam tocar com delicadeza os ouvidos. Esvaziam-se, dão-se à aragem que roça as folhas da aroeira. Ondulam como a água de um lago profundo. Escolhem-se a si, lutando contra…
Aqui o bicho pega
Recentemente narrei-lhes os feitos da cadela Aika e dos elefantes on the road chineses. E do galo delinquente de Ivaiporã. Contava assim ter esgotado o bestiário no mês de junho, mas aí a Arara-Canindé de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, achou muito engraçado me botar cabreiro, subverter meus planos, e meter-se nesta crônica julina.…
Mais perdido que cachorro no gelo
A alvíssima Aika perdeu-se no Ártico. A cachorrinha fugiu e acabou numa lasca de iceberg, quebradiça como um pedaço de beiju. Um calafrio de efeito colateral de Astrazeneca correu pelo meu corpo só de imaginar o frio. De tão doloridos, os coxins da pobre samoieda mal tocavam o solo gelado. Um navio quebra-gelo russo a…









