Delinquência*

Google Maps - captura de tela editada

Era uma Disneylândia de açúcar. Três fatias de torta me encaravam da vitrine com um olhar de cão carente.

A tarde pedia pra sair, e a noite elétrica reconfeitava as ruas. Não pensem que eu estava na Confeitaria das Famílias do calçadão da XV ou na similar, da Rocha Pombo, da qual desvio para não entrar e comprar um time todo de “Pelés” — doce maravilhoso de chocolate com rum. O camisa 10 das confeitarias de Curitiba.

Não. Era um boteco, decente, mas boteco. Na Saldanha Marinho, no trecho colado à praça Tiradentes. Havia comido duas esfirras. Peguei o dinheiro pra pagar, reservando dois reais pro flanelinha-chapa da Nestor de Castro. No balcão rolou um papo como o dono do estabelecimento. Falamos dos nóia da rua, tráfico de drogas, assaltos. Um clássico do pedaço.

Sentia-me seguro ali, cercado de traficantes, viciados, ladrões amadores e profissionais. Mas nada indicava que uma quadrilha de açúcar me sequestraria naquele instante: um pedaço de cheesecake coroado por uma calda cor de vinho photoshopada; uma fatia de torta de mousse, da qual manava um riacho de calda de chocolate; e – pra acabá! – uma torta alemã, recheada por uma faixa suicida de bolacha e creme.

A essa altura já não ouvia o que o proprietário do boteco dizia. Arrebentara um motim entre meus neurônios. A célula responsável pela dieta — nervosíssima — tentava conter a insurreição. Neurodoces enviavam sinais para minha língua, que salivava a cataratas. A célula diet, prevendo a derrota, gritava a plenos pulmões (ou neuropulmões?) “O diabetes, lembrem-se do diabetes!”

Quando tudo parecia perdido, uma voz melíflua flauteou ao meu lado

– Moço, embrulha estes três pedaços pra viagem.

O longuíssimo indicador ligado àquela voz apontava para a vitrine. Eram as tortas. Deu-se um apagão na minha nau neuronal. Depois de cinco segundos, com os olhos esbugalhados e a boca aberta, despedi-me do dono com um tchau apressado e corri aliviado para o braço dos delinquentes da Saldanha Marinho.


9 comentários em “Delinquência*

  1. Me lembrei de uma cena espetacular em que um pedaço de bolo desempenha o papel principal da ação: Em Era uma vez na América, de Sérgio Leone, o garoto leva o doce para a prostituta que prometeu atendê-lo se ele fizesse essa “cortesia”. Ele bate à porta e fica esperando na escada. O tempo que ela leva para abrir parece uma eternidade. E ele ali, olhando para o bolo. O desejo vai se deslocando do amor da prostituta para o bolo. Quando ela abre a porta e pergunta o que ele queria, já não era mais nada. O bolo vencera.

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  2. Quem gosta de doce entende. E olha que o cheesecake podia ser bom. Tem que voltar pra conferir. Tem um na padaria da Amauri Lange com David Hume que vale experimentar. Só não tem a calda colorada.

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