A rua da minha aldeia

O nome esquisito da rua vem da leva de alemães que povoaram os ermos daqui.

O homem anda. Com sílex, facão, peixeira, foice ou retroescavadeira, esse bípede sem plumas abre carreiros, boqueirões, veredas, trilhas, sendas, sendeiros, vielas, vias, ruas, estradas e autopistas. Ou mesmo binários, rápidas e trincheiras, variantes curitibanas.

Mas o hábito de andar deu ruim desde que esta fita de proteína coroada de espinhos nos tangeu pra dentro de casa. Restou, pra tocar adiante o Letra Corrida, errar pelo bairro. Sorrateira e virtualmente.

Moro na Rua Rolf Faria Gugisch (pronuncia-se Gúgisch, parece). Acomoda-se em dois quarteirões. O primeiro, onde a Rolf começa e onde penduramos nossa casa, é uma ruga entre dois barrancos. De um lado morro; do outro, despenhadeiro. O segundo quarteirão é côncavo. Duas ladeiras de uns 45 graus encaram-se, formando uma letra V, meio abaulada no fundo, desejando ser um U. Termina resfolegando no meio de outro ladeirão, a rua Humberto de Campos, que sobe mais, agarrando-se na avenida Amauri Lange Silvério, via importante do bairro.

Como você já deve ter percebido, trancafiada leitora, trancafiado leitor, esta é uma região cheia de altos e baixos. Mais “altos”, pois chega a 960m de altitude, ficando entre os pontos mais elevados da cidade. O Belém, rio desta aldeia e do Dalton Trevisan, nasce metros acima daqui, na Barreirinha, e rola bairros abaixo, resvalando no meu, o Pilarzinho.

Mapa do Pilarzinho na altura da Rolf Faria Gugisch/Google Maps

O Pilarzinho guarda ainda um ar rural, com trechos de matas preservadas, casas de madeira e um trânsito de gambás, porcos-espinhos e esquilos resilientes. Mas descrevo só uma parte do bairro, pois ele se espalha por cerca de sete quilômetros quadrados, área maior que a da ilha de Gibraltar, pedrão famoso que separa a África da Europa.

O nome da minha rua – Rolf Faria Gugisch – deve-se provavelmente à leva de alemães que povoaram os ermos daqui. (Tenho um vizinho chamado Germano, unglaublich, nicht?*.) Encasquetei, então, com esse topônimo tedesco e saí por aí a pesquisar para saber quem foi esse Rolf. Farejei três pistas.

A primeira é 1981, ano em que a rua recebeu o nome. Foi durante a gestão do Jaime Lerner, quando esse Gúgisch não perambulava mais por aí, pelo menos em carne e osso. A segunda, eu a encontrei enquanto zanzava pelo Google. Dei com o Rolf no Olimpo. Não o grego, mas o pico da Serra do Marumbi, franja rochosa que separa Curitiba do mar. Em 1933, trilheiros escalaram-no até o ponto mais alto, mais de 1.500m de altura, e toparam com uma mensagem numa garrafa. O papel registrava o ano (1932) e os nomes dos alpinistas amadores: o nosso Rolf Faria Gugish e seu irmão (?), Mário Gugisch.

Pico do Olmpo/ foto Anderson Ferreira/Aventurebox

Palmilhando mais um pouco pelas infovias, esbarrei na terceira pista, num provável descendente: Rolf Massao Satake Gugisch. Engenheiro. Deixei uma garrafa virtual pra ele com algumas perguntas. Se um dia for encontrada, conto-lhes a resposta, agrilhoadas leitoras, agrilhoados leitores.

Enquanto aguardo o Rolf responder, dou um rolê pelo passado, lugar em que muita gente tem ido nesta hora em que o presente e o futuro deram um tempo. Chego à 13 de maio, rua em que morei em São Paulo desde que saí da maternidade até a década de 1980. Quando comecei a entender o mundo, a 13 ainda não tinha asfalto. Um dia ele chegou e andei um monte até chegar aqui.

E não pretendo parar.


* Equivalente ao nosso “Vocês acreditam?” (obrigado, Márcio!)

5 comentários em “A rua da minha aldeia

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