Natal à vista

— É o cortador da receita da Ana Maria Braga! — assim terminava a publi do vendedor no vagão do metrô paulistano. Com habilidade invejável, cortava, descascava e picava brócolis, rúculas, cenouras, enquanto o veículo seguia rumo à estação Carrão da Linha Vermelha. De uma sacola grande, como aquelas de tenista, saía um saco de lixo preto de sessenta litros, no qual ia despejando as sobras de verduras e legumes. O artefato à venda é uma espécie de faca com lâmina quadrada, duplamente vazada, que ele manipulava como um velho ferramenteiro. Contei pelo menos sete vendas antes de eu descer do trem.

Indo para a Sé, ainda na Linha Vermelha, agora no sentido contrário, uma pequena e prática carteira era oferecida a dez reais. A vendedora listava as inúmeras vantagens do produto: compartimentos para notas, moedas, documentos e cartões confeccionados milimetricamente. Um adolescente barrigudinho, de bermuda impermeável e chinelo de dedo comprou a sua, logo abastecida com seus parcos pertences e mocozada no bolso. A vendedora moveu-se para o fundo do carro moída pelos ombros e quadris dos passageiros, entoando o irresistivel canto das carteiras.

— Quem quiser que eu vá embora, diga logo que eu dou o fora, cantofalou em redondilhas o rapper assim que aterrissou no vagão, na estação Tatuapé. Seguiu cantando e falando, o silêncio consentiu, insatisfeito no entanto, um coro de boa tarde seguido ao seu exigiu, perdeu de primeira, na segunda levou, meu boa tarde também, bem quando saí do trem. Se faturou bem, sem saber fiquei.

As luzes de Natal do colégio Maria Cabrini lutavam com a escuridão da avenida Domingos de Morais, perto da saída do metrô. As mesas vermelhas do Estrela da Vila Mariana jaziam murchas naquela noite de terça-feira. Cinco clientes se espalhavam pelo grande salão do bar como pétalas esquecidas. Um garçom de folga fala alto com o colega de plantão. Combina voltar na próxima terça-feira, mas o outro lembra que será Natal — Oxê, nem me lembrava disso. Atrás dele, de chapéu vermelho com borla branca, um menino, inexpressivo como uma flor de plástico, segura um tabuleiro delineado de lampadinhas, carregado de balas, chicletes e doces. — Compra uma bala, moço.

Em um conto do escritor norte-americano Bret Harte (1836-1902), Johnny pergunta: “Que diacho de coisa é o Natal, meu pai?”. Não me atrevo a responder, mas desconfio que não é mesma coisa pra todos. Reencontrei o vendedor do cortador de legumes na Linha Azul. Quando desci, não tinha vendido nada.


* Foto minha, dez/2024. É proibido qualquer tipo de comércio nos vagões do metro paulistano.

4 comentários em “Natal à vista

      1. Verdade que a beleza da cidade pintada pelo Canaletto é única. Mas o que me chamou a atenção foi a semelhança do olhar que vê a luta pela sobrevivência como se nada visse. Uma alusão desinteressada aqui, outra ali, ao que enfim está no foco. Imaginei que, se Canaletto pintasse hoje, imortalizaria os imigrantes tentando vender seus badulaques aos turistas despreocupados, mais atentos às vitrines das lojas de grife do aos monumentos arquitetônicos ao redor.

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      2. No Natal, muita gente correndo pra conseguir um troco a mais pra comer, pagar contas etc. Apesar do Metrô proibir, muitos ambulantes conseguem burlar a vigilância e trabalhar nos vagões. É o Brasil velho de guerra, excluindo e punindo quem foi impedido de entrar na “festa”. Grato pela leitura fina!

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