Acordei com uma vontade canina de ir a um sebo. Há mais de um ano sem pisar num deles era de se esperar, mas esse desejo nasceu de um sonho na noite passada. Chovia muito nele. Fui levar cobertores para moradores de rua. Conversei com um casal que dormia num berço. Par que súbito reconheci…
Autor: Eugênio Vinci de Moraes
Em busca do calor perdido
Caminhava para exorcizar o frio que me sorveteava os dedos dos pés. A elegante luz de inverno compensava os minguados graus célsius daquela manhã. A ideia era fustigar ossos e músculos em busca do calor perdido. Incendiado pelo objetivo, desci a rua de casa rumo ao Bosque do Pilarzinho. Movia-me também o propósito andar a…
“Imensa preguiça!”*
AS palavras que lê agora, meu atarefado leitor, minha atarefadíssima leitora, digitam-se aqui mui lentamente. De pantufas, evitam arranhar a tela em que se inscrevem. Algodões, esperam tocar com delicadeza os ouvidos. Esvaziam-se, dão-se à aragem que roça as folhas da aroeira. Ondulam como a água de um lago profundo. Escolhem-se a si, lutando contra…
Aqui o bicho pega
Recentemente narrei-lhes os feitos da cadela Aika e dos elefantes on the road chineses. E do galo delinquente de Ivaiporã. Contava assim ter esgotado o bestiário no mês de junho, mas aí a Arara-Canindé de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, achou muito engraçado me botar cabreiro, subverter meus planos, e meter-se nesta crônica julina.…
Mais perdido que cachorro no gelo
A alvíssima Aika perdeu-se no Ártico. A cachorrinha fugiu e acabou numa lasca de iceberg, quebradiça como um pedaço de beiju. Um calafrio de efeito colateral de Astrazeneca correu pelo meu corpo só de imaginar o frio. De tão doloridos, os coxins da pobre samoieda mal tocavam o solo gelado. Um navio quebra-gelo russo a…
BBB? SQN
Apelei e fui às ruas. Cansado de arrancar assunto de pedra fui dar um rolê no calçadão da XV pra caçar o que escrever aqui no Letra Corrida. Chega de percorrer as esquinas bolorentas dos meus lobos cerebrais, enfiar-me pelas vielas escuras do córtex cerebral e calcinar meus neurônios para emendar um punhado de frases…
Cidade verde
Sentei na grama que cobre as calçadas da avenida Cândido de Abreu. Aproveitei uma sombra projetada por uma dedaleira. Os cipós-de-São-João incendiavam o telhado do Shopping Muller com suas flores de fogo. Os arbustos de hibisco selvagem dedilhavam os limites da praça do Homem Nu com botões vermelhos. Meu plano era seguir até a Praça…
Custo-benefício*
Há algum custo-benefício em escrever crônicas enquanto morrem duas, três mil pessoas-dia no país? Não sou capaz de responder a essa pergunta. Menos ainda saber qual empreendedor da língua criou o substantivo composto que ocupa o título deste texto. Suponho ser primo do autor da expressão “não há bônus sem ônus”, versão erudita do “não…
Cavalgadas
Estou em São Paulo. Os escapamentos das motos açoitam a noite quente. Na Vila Madalena, o jantar, a conversa no celular, a troca de mensagem no Whatsapp, o noticiário da tevê, a série, são pontuados por vergastadas estridentes de CO2. Aumenta-se o volume quando elas estalam. Pergunta-se o quê? não entendi, fala de novo, mais…
A visita do casal opilião
Não, caro leitor, cara, leitora, não é um erro de revisão. Você leu Opilião. A linha nervosa do corretor ortográfico sublinha a palavra mal acabo de digitá-la. Quer porque quer trocá-la por opinião. Não é que eu não tenha uma, tenho-as, muitas, ainda mais neste tempos de pandemia e de um presidente inominável no poder.…






