“Imensa preguiça!”*

AS palavras que lê agora, meu atarefado leitor, minha atarefadíssima leitora, digitam-se aqui mui lentamente. De pantufas, evitam arranhar a tela em que se inscrevem. Algodões, esperam tocar com delicadeza os ouvidos. Esvaziam-se, dão-se à aragem que roça as folhas da aroeira. Ondulam como a água de um lago profundo. Escolhem-se a si, lutando contra…

Mais perdido que cachorro no gelo

A alvíssima Aika perdeu-se no Ártico. A cachorrinha fugiu e acabou numa lasca de iceberg, quebradiça como um pedaço de beiju. Um calafrio de efeito colateral de Astrazeneca correu pelo meu corpo só de imaginar o frio. De tão doloridos, os coxins da pobre samoieda mal tocavam o solo gelado. Um navio quebra-gelo russo a…

Custo-benefício*

Há algum custo-benefício em escrever crônicas enquanto morrem duas, três mil pessoas-dia no país? Não sou capaz de responder a essa pergunta. Menos ainda saber qual empreendedor da língua criou o substantivo composto que ocupa o título deste texto. Suponho ser primo do autor da expressão “não há bônus sem ônus”, versão erudita do “não…

A visita do casal opilião

Não, caro leitor, cara, leitora, não é um erro de revisão. Você leu Opilião. A linha nervosa do corretor ortográfico sublinha a palavra mal acabo de digitá-la. Quer porque quer trocá-la por opinião. Não é que eu não tenha uma, tenho-as, muitas, ainda mais neste tempos de pandemia e de um presidente inominável no poder.…