Apelei e fui às ruas. Cansado de arrancar assunto de pedra fui dar um rolê no calçadão da XV pra caçar o que escrever aqui no Letra Corrida. Chega de percorrer as esquinas bolorentas dos meus lobos cerebrais, enfiar-me pelas vielas escuras do córtex cerebral e calcinar meus neurônios para emendar um punhado de frases…
CRÔNICA
Cidade verde
Sentei na grama que cobre as calçadas da avenida Cândido de Abreu. Aproveitei uma sombra projetada por uma dedaleira. Os cipós-de-São-João incendiavam o telhado do Shopping Muller com suas flores de fogo. Os arbustos de hibisco selvagem dedilhavam os limites da praça do Homem Nu com botões vermelhos. Meu plano era seguir até a Praça…
Custo-benefício*
Há algum custo-benefício em escrever crônicas enquanto morrem duas, três mil pessoas-dia no país? Não sou capaz de responder a essa pergunta. Menos ainda saber qual empreendedor da língua criou o substantivo composto que ocupa o título deste texto. Suponho ser primo do autor da expressão “não há bônus sem ônus”, versão erudita do “não…
Cavalgadas
Estou em São Paulo. Os escapamentos das motos açoitam a noite quente. Na Vila Madalena, o jantar, a conversa no celular, a troca de mensagem no Whatsapp, o noticiário da tevê, a série, são pontuados por vergastadas estridentes de CO2. Aumenta-se o volume quando elas estalam. Pergunta-se o quê? não entendi, fala de novo, mais…
A visita do casal opilião
Não, caro leitor, cara, leitora, não é um erro de revisão. Você leu Opilião. A linha nervosa do corretor ortográfico sublinha a palavra mal acabo de digitá-la. Quer porque quer trocá-la por opinião. Não é que eu não tenha uma, tenho-as, muitas, ainda mais neste tempos de pandemia e de um presidente inominável no poder.…
De galho em galho
Ouvi um estalido. Outro. E um ploft! em caixa alta. Olhei pela janela e vi um senhor galho caído sobre a cerca do terreno. Desbeiçou o emaranhado de arame que grampeia o limite de nossa propriedade. Demoramos para tirá-lo dali. Teve de esperar a passagem de 2020 para 2021, até conseguirmos aterrissá-lo definitivamente. Parte dele…
Subimos no telhado
para Albano Miranda, quem me apresentou o cavalo de Alexandre O cavalo caiu no telhado. Deu no jornal. Aconteceu em Aricanduva, cidade que luta pra chegar aos 5 mil habitantes no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. O telhado em questão é o da sede da prefeitura; o equino, um habitué do pasto vizinho ao…
Não culpem o urubu
Bem-vinda, Bem-vindo ao ano que não começou. No calendário juntaram-se quatro novos algarismos, mas eles mentem. Dois mil e vinte não acabou em primeiro de janeiro. Avançou a linha da folhinha gregoriana como uma bexiga elástica e medonha. Nesta segunda semana de fevereiro, ainda lhe sentimos o látex esticado e frio. Prova-o o único folião…
Rescaldo
Última crônica do ano, persistente leitora, persistente leitor. Nesta página que encerra o malfadado-xô-capeta-vade-retro-inominável 2020, fica o rescaldo das histórias não publicadas no Letra Corrida. Se a crônica sumir do mapa -- como andam dizendo por aí --, deixo ao menos as pistas do que poderiam ter sido mas não foram. Bacia do Rio Barigui;…
Delírio brevíssimo
Em um fim de tarde, procurando me desconectar, dei por mim, imóvel, encarando-os. Um balde e uma vassoura habitam-me a garagem. O primeiro serve água aos cachorros; a outra corre com folhas e poeira. De lata, o balde tem ar de relíquia; de palha, a vassoura espiga elegância. Há algo de Sancho Pança e Dom…


