Ouvi um estalido. Outro. E um ploft! em caixa alta. Olhei pela janela e vi um senhor galho caído sobre a cerca do terreno. Desbeiçou o emaranhado de arame que grampeia o limite de nossa propriedade. Demoramos para tirá-lo dali. Teve de esperar a passagem de 2020 para 2021, até conseguirmos aterrissá-lo definitivamente. Parte dele…
Autor: Eugênio Vinci de Moraes
Subimos no telhado
para Albano Miranda, quem me apresentou o cavalo de Alexandre O cavalo caiu no telhado. Deu no jornal. Aconteceu em Aricanduva, cidade que luta pra chegar aos 5 mil habitantes no Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. O telhado em questão é o da sede da prefeitura; o equino, um habitué do pasto vizinho ao…
Não culpem o urubu
Bem-vinda, Bem-vindo ao ano que não começou. No calendário juntaram-se quatro novos algarismos, mas eles mentem. Dois mil e vinte não acabou em primeiro de janeiro. Avançou a linha da folhinha gregoriana como uma bexiga elástica e medonha. Nesta segunda semana de fevereiro, ainda lhe sentimos o látex esticado e frio. Prova-o o único folião…
Rescaldo
Última crônica do ano, persistente leitora, persistente leitor. Nesta página que encerra o malfadado-xô-capeta-vade-retro-inominável 2020, fica o rescaldo das histórias não publicadas no Letra Corrida. Se a crônica sumir do mapa -- como andam dizendo por aí --, deixo ao menos as pistas do que poderiam ter sido mas não foram. Bacia do Rio Barigui;…
Delírio brevíssimo
Em um fim de tarde, procurando me desconectar, dei por mim, imóvel, encarando-os. Um balde e uma vassoura habitam-me a garagem. O primeiro serve água aos cachorros; a outra corre com folhas e poeira. De lata, o balde tem ar de relíquia; de palha, a vassoura espiga elegância. Há algo de Sancho Pança e Dom…
O galo (ainda) canta
por Vilmar Debona* No bairro de Santa Maria, a cidade gaúcha em que moro, ainda há ao menos um galo vivo. Ele canta. Galos urbanos quando cantam, denunciam. Denunciam mais que a domesticação; chegam a acusar projetos falidos de urbanidades cinzas, em que só se buzina, esbarra-se, acotovela-se num vai e vem incessante... e quase…
De barulhos e sons
Não gosto de barulho. Nem por isso deixaram de parir mais um por estas bandas do Pilarzinho. Ou melhor, reciclar: o ruído é o mesmo; a função, outra. É a recém-batizada por mim buzinaplauso ou buzina-aplauso - aglutinada ou com hífen, como preferirem. Explico. Converteram a Pedreira Paulo Leminski num draivinzão. Um público a quatro…
Vade retro
Sair de casa tem sido uma lástima. Não deveria. Deveria ser uma epifania. Mas é húmus pra úlcera, novelo de pesadelo. O ruim começa nos óculos embaçados por causa da máscara, segue com a esfregação do álcool em gel e culmina no medo de aproximar-se das pessoas. Mas saí. Obrigava-me o exame médico para renovar…
Lira de empréstimo
O poético esmalta a membrana desta hora em que esquecemos do trabalho, do dinheiro e da morte. Hoje é daqueles dias de escrever poema. Luzes fotografam árvores, cães riscam a película que reveste a tarde, pássaros pretos de bicos cor de madeira esmerilham o ar com asas de aço. Dia pra poema, não pra crônica.…
Crônica-parágrafo
[...] intenção aqui é homenagear essa forma de organização do texto, companheira do cronista aonde quer que ele vá. (Resolvi abrir um parêntese para o parágrafo, para falar desse companheiro de toda crônica, fiel na hora de recortar o assunto, de dar ritmo ao tema da conversa, aliviando a vida do leitor ao permitir-lhe respirar…





