Não gosto de barulho. Nem por isso deixaram de parir mais um por estas bandas do Pilarzinho. Ou melhor, reciclar: o ruído é o mesmo; a função, outra. É a recém-batizada por mim buzinaplauso ou buzina-aplauso - aglutinada ou com hífen, como preferirem. Explico. Converteram a Pedreira Paulo Leminski num draivinzão. Um público a quatro…
CRÔNICA
Vade retro
Sair de casa tem sido uma lástima. Não deveria. Deveria ser uma epifania. Mas é húmus pra úlcera, novelo de pesadelo. O ruim começa nos óculos embaçados por causa da máscara, segue com a esfregação do álcool em gel e culmina no medo de aproximar-se das pessoas. Mas saí. Obrigava-me o exame médico para renovar…
Lira de empréstimo
O poético esmalta a membrana desta hora em que esquecemos do trabalho, do dinheiro e da morte. Hoje é daqueles dias de escrever poema. Luzes fotografam árvores, cães riscam a película que reveste a tarde, pássaros pretos de bicos cor de madeira esmerilham o ar com asas de aço. Dia pra poema, não pra crônica.…
Crônica-parágrafo
[...] intenção aqui é homenagear essa forma de organização do texto, companheira do cronista aonde quer que ele vá. (Resolvi abrir um parêntese para o parágrafo, para falar desse companheiro de toda crônica, fiel na hora de recortar o assunto, de dar ritmo ao tema da conversa, aliviando a vida do leitor ao permitir-lhe respirar…
Laives sem fim
Mal toco em um ícone, um par de rostos irrompe na tela do celular, levando altos papos. Tenho tomado muitos sustos. Com laives. (permitam-me o abrasileiramento, ortodoxa leitora, ortodoxo, leitor.) Ora no Facebook, ora no Instagram. Tereza Cristina e Daniela Mercury numa laive;Foto extraída da Trip Mal toco num ícone, um par de rostos irrompe…
Esponja velha
Mas de que serve, calejada leitora, calejado leitor, escrever sobre uma esponja velha quando ontem morreram mil pessoas e amanhã morrerão mais mil? Enternece-me a esponja velha. A que singra litros de gordura animal, percorre quilômetros de fibras vegetais, esfalfa-se em meio a arrobas de farinha de todo grau e, molenga, aporta na praia. A…
Não vai colar
Não me conformo é com o sarcasmo: pregar a sentença de morte no corpo da sentenciada. Ministério Público Estadual do Paraná manda suspender o corte de 231 araucárias em Cascavel. Pretendia-se abater mais de duas centenas de árvores no meio da pandemia. Agora, em maio. Meses antes, em janeiro, 4 mil "exemplares arbóreos" no Jaraguá,…
Leminski Road
Gosto de pensar que os aclives e declives do bairro tenham se infiltrado nos versos que o poeta escreveu por aqui de 1976 a 1988 Esta crônica começa pendurada na anterior. Segue pelos despenhadeiros do Pilarzinho. Se você chegou agora ao Letra Corrida, alcoogeleizada leitora, alcoolgeleizado leitor, Pilarzinho é um bairro que escapa para o…
A rua da minha aldeia
O nome esquisito da rua vem da leva de alemães que povoaram os ermos daqui. O homem anda. Com sílex, facão, peixeira, foice ou retroescavadeira, esse bípede sem plumas abre carreiros, boqueirões, veredas, trilhas, sendas, sendeiros, vielas, vias, ruas, estradas e autopistas. Ou mesmo binários, rápidas e trincheiras, variantes curitibanas. Mas o hábito de andar…
Alcoolgeleização da vida
O cronista busca assunto em meio à quarentena provocada pelo Covid-19 Nada pior para uma cronista do que não poder sair de casa. A menos que ele seja um Rubem Braga ou um Drummond, cujas vidas são uma Beijing de histórias. Pra você ter uma ideia, confinada leitora, confinado leitor, num mesmo livro* o cronista…







